Sair das redes sociais – Porque mais empreendedores estão a fazê-lo?

Em finais de Abril de 2019, decidi sair das redes sociais. Eliminei do meu telemóvel as aplicações do facebook e do instagram. Não publiquei nada nem segui publicações de ninguém.

Mas enquanto empreendedora que utiliza as redes sociais como via de comunicação do seu trabalho, estes três meses trouxeram-me um misto de sentimentos. Por um lado, um bem-estar e sanidade mentais inquestionáveis. Por outro, um receio face às possíveis consequências nefastas que este detox digital poderia ter no meu trabalho.

O que me levou afinal a fazer este detox digital? Porque se fala cada vez mais deste conceito e porque cada vez mais pessoas estão a aderir? Devem ou não os pequenos empreendedores como eu implementar este conceito? E se sim, como implementar um detox digital sem comprometer o sucesso dos nossos empreendimentos? 

O que me levou a sair das redes sociais?

Computador aberto com telemóvel pousado em cima, óculos e planta ao lado. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - sair das redes sociais.

  • Perdi o meu norte, a razão pela qual faço o que faço, o meu propósito!

Eu passara os últimos tempos a fazer scroll no feed de notícias das minhas redes (nós, millenials, já fomos até intitulados de “geração scroll”!). E dei por mim a procurar constantemente saber o que os outros estavam a fazer e o que é que lhes trazia o sucesso que eu também quero para mim. 

A uma dada altura, eu já não estava a fazer aquilo que me fazia sentido a mim, eu já não estava a ouvir a minha própria voz. Eu estava a seguir a manada, a fazer o mesmo que via os outros fazerem, a ser igual a tantos outros.

  • Ignorei o meu diferencial e subvalorizei o meu lastro!

Todo o sentido de trabalho autoral que tenho procurado trazer para o meu projeto profissional desde o seu início, estava agora a diluir-se. No meio de todos os coachs e profissionais do desenvolvimento pessoal e espiritual que pipocam diariamente, senti-me uma fraude!

Deixei-me assim apoderar pela síndrome do impostor, “(…) um fenômeno pelo qual pessoas muito capacitadas sofrem de uma inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitadas assim e subestimando as próprias habilidades (…)”.1

Com isso, menosprezei as conquistas que realizei ao longo da minha vida, ignorei todas as provas externas da minha competência, inibi-me de comunicar com orgulho humilde o meu lastro, a minha história, o meu percurso, a minha experiência.

  •  Acreditei que para ter sucesso, precisava criar uma personagem!

Assisti a uma forte discrepância entre as publicações de algumas pessoas e as suas vidas reais. Assistia ao aparente sucesso dessas pessoas e confirmava a minha crença de que, para ter sucesso, eu teria que criar uma personagem, eu teria que desempenhar um papel. Que não bastava ser quem eu verdadeiramente sou!

Ora isso, para quem tem o valor de honestidade no topo dos seus valores e para quem não tem o menor talento para a representação, conduziu-me a pensar que, dessa forma, não existia um lugar para mim no mundo das redes sociais.

3 meses depois – quais os benefícios?

Mulher a trabalhar no computador. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - sair das redes sociais.

  • Maior foco e criatividade.

Um artigo da CNN Business revela que as distrações digitais constantes afectam a nossa capacidade de foco, de pensar de forma criativa e de tomar decisões.2

Estas distrações constantes impedem-nos também de realizar outras partes importantes dos nossos empreendimentos como: executar planos estratégicos, inovar, resolver problemas e fazer com que as pessoas com quem comunicamos se sintam ouvidas.2

Tanya Goodin é a fundadora do Time to Log Off, um projeto com a missão de trazer o detox digital para a vida pessoal e profissional das pessoas. Ela refere que alguns participantes dos seus retiros reestruturam os seus empreendimentos durante o tempo em que estiveram longe dos seus telemóveis. Outros, saem dos retiros com muitas ideias criativas.2

Da mesma forma, nestes 3 meses, pude dedicar-me por inteiro a projetos que há muito que queria nutrir. Sem distrações, sem me perder tanto na imensidão de coisas que quero fazer, que posso fazer e que vejo os outros fazerem.

  • Maior clareza sobre o propósito.

No Podcast Musas, a Mami descreveu na perfeição esta clareza que advém de nos focarmos em dar voz à nossa própria voz

“(…) cada pessoa já vem [com a sua] semente, já tem ali o génese do seu universo. E nós devíamos passar a vida a tentar perceber quem somos não é? Em vez de tentarmos ser este ou aquele, devíamos tentar perceber quem somos. (…) quanto mais te apaixonares por ti mesma, quanto mais te estudares sem julgamento, como se estivesses a estudar uma espécie nova não é, mais saberás quem és ou saberás realmente quem és. E o que acontece (…) é que quando tu queres ser tu própria ao máximo, tu sais da corrida, tu percebes que não há corrida possível com mais ninguém, não há concorrência.” 

Quando nos comparamos com os outros e com o que eles estão a fazer, tiramos potência à materialização das NOSSAS ideias e à expressão da nossa própria voz.

Com estes 3 meses de detox, ficou bem mais claro para mim qual o meu propósito com o meu trabalho, onde me quero focar e o que eu, só eu, tenho para trazer para o mundo.

  • Maior bem-estar e sanidade mentais.

Quando saímos da competição desenfreada por quem tem mais seguidores e mais likes e nos focamos em ser o melhor que podemos ser e em dar o melhor que podemos dar, sentimo-nos mais felizes, mais serenos e mais confiantes num caminho que é só nosso!

  • Menos quantidade e mais qualidade – no consumo e na produção!

O tempo que investia nas redes sociais foi canalizado para nutrir projetos que eu queria ver crescer. O meu foco tornou-se menos disperso e percebi o meu desejo de produzir menos quantidade com mais qualidade.

Se pesquisarmos, por exemplo, no Google sobre qual a frequência para postar conteúdos nas redes sociais, encontramos um sem número de artigos que nos empurram para aquilo que, numa conversa para o podcast “Conversas Despreocupadas”, o Pedro Silva-Santos chamou de marketing de insistência (e não marketing de consistência).

É o fast food do digital, com produção de conteúdos de baixo valor nutricional (qualidade), de consumo rápido e de prazer instantâneo (aquele boost de motivação e otimismo que se desvanece num instante).

O meu desejo é que, da mesma maneira que existe uma consciência crescente para o consumo sustentável (seja de alimentação, seja de produtos), aprendamos também a consumir (e a produzir!) conteúdos de forma igualmente cuidada e exigente.

Como sair das redes sociais sem comprometer o sucesso dos meus empreendimentos?

Computador aberto com telemóvel pousado em cima, óculMáquina de escrever com caderno ao lado. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - sair das redes sociais.

  • Antes de um detox digital, deixa conteúdos ativos que alimentem o teu empreendimento. 

Eu falei sobre isto com o Tiago Faria no seu podcast. Nos últimos quatro anos, criei conteúdos diversificados e em parceria.

No que toca à diversificação, escrevi artigos para o meu blog, gravei vídeos para o meu canal de youtube, escrevi um ebook e criei o meu podcast, o Musas.

Em parceria, criei conteúdos para o Nomadismo Digital Portugal, estive presente no canal de youtube do Made by Choices e gravei um episódio para o podcast Officina entre outras parcerias.

Isso fez com que nestes meses de detox, eu continuasse a ter novos pedidos de acompanhamentos individuais, novas subscrições da newsletter e novos pedidos de inscrição para a Academia de Des-Coberta Pessoal e para o Workshop “Trabalho com Propósito”.

E saliento aqui, mais uma vez, a importância de trabalharmos juntos, de cooperarmos ao invés de competirmos. As parcerias que realizei no passado foram a principal fonte de chegada do meu rendimento ativo nestes meses.

  • Antes de um detox digital, cria formas de rendimento passivo.

Se a tua intenção é, a par desse detox, tirar um tempo off do trabalho, então recomendo que invistas previamente na criação de renda passiva.

Rentabiliza algo que já tenhas feito, optimizando os teus recursos ao máximo. Ebooks, meditações guiadas, formações, cursos ou workshops online são ideias comumente concretizadas.. 

  • Consome menos quantidade e mais qualidade.

Há quem utilize as redes sociais meramente para se comunicar e que não siga mais ninguém. A Mimi Ikonn falou disso nesta entrevista aqui

Deixa de seguir quem desperta em ti a comparação e a síndrome do impostor. Anula subscrições das newsletters que nunca lês e das que não te agregam real valor. Igual para os canais de youtube que tens subscrito. 

Lembra-te que tens a liberdade de escolher o que queres consumir. Faz um bom uso dessa liberdade e escolhe apenas aquilo que te apoia a chegares onde queres chegar!

  • Incorpora técnicas e momentos de detox digital no dia-a-dia de trabalho.

✓ Mais analógico e menos digital.3

Utilizar papel e caneta, os quadros brancos e outras ferramentas analógicas ativam outras partes do nosso cérebro que não são ativadas quando utilizamos a tecnologia. Faz apelo ao analógico para mais criatividade no teu empreendimento. 

✓ Faz pausas da tecnologia.3

A cada 25 minutos de trabalho, interrompe o teu trabalho e tira os teus olhos do ecrã.

✓ Conecta-te com o corpo.3

Incorpora corridas ou caminhadas no teu dia de trabalho. Isso apoia-te a desconectares do digital para te reconectares com a vida que acontece fora dos ecrãs. 

✓ Define horários para desligares o wi-fi do teu telemóvel.

Na medida do possível, desligo o wifi a partir do momento em que vou buscar os meus filhos à escola. 

✓ Retira todas as notificações das aplicações do telemóvel.

Pensa, se algo de urgente ou realmente importante acontecer, receberás uma chamada. Desligar as notificações foi umas das melhores coisas que eu já fiz. Desta forma, não sou distraída por aqueles sonzinhos que me tiram o foco do que estou a fazer.

✓ Utiliza apps que te ajudem a sair do ecrã (sim, leste bem!)

Para quem precisa de uma ajudinha para se afastar dos ecrãs, existem aplicações como a Forest.

Foi a Krystel Leal, CEO do Nomadismo Digital Portugal, que a partilhou comigo explicando-me que ganhamos pontos por não mexer no telemóvel. Esses pontos podem depois ser trocados por árvores reais já que a app tem uma parceria com a ONG Trees for the Future que se responsabiliza pela plantação.

Concluindo…

Computador aberto com telemóvel pousado em cima, óculDedo a carregar no botão de ligar e desligar o computador.Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - sair das redes sociais.

Para além dos benefícios que partilhei contigo sobre o que este detox me trouxe, ele levou-me também a perceber que eu não estou sozinha. Cada vez mais empreendedores estão a despertar para esta necessidade de repensar a utilização que estamos a fazer do digital

Consumir e produzir de forma consciente deverá estender-se a todas as áreas das nossas vidas, inclusive à área do digital. Vários projetos internacionais estão a levar esta consciência para as pessoas e para as empresas. 

É o caso da Time do Log Off, da Unhustle e da Digital Detox. Em Portugal, temos a Offline Portugal, que através de surf, yoga, música e workshops, nos apoia a “desconectar para reconectar”. 

Se te sentes chamado a desconectar, honra essa voz interna. Se não te é possível fazeres um verdadeiro detox digital como eu fiz, então incorpora pequenas técnicas e momentos no teu dia-a-dia que te afastem dos ecrãs.

No final deste ano, eu e a Ana Milhazes, fundadora do Lixo Zero Portugal e autora do blog Ana, Go Slowly, vamos facilitar um retiro que te apoiará a desconectares para te poderes regenerar para o novo ano. Se queres receber mais informações sobre o evento, contacta-nos através de contacto@sofiadeassuncao.com.

Referências:

1 Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_do_impostor

2 CNN Business: https://edition.cnn.com/2019/02/07/success/digital-detox-executives/index.html

3 Virgin: https://www.virgin.com/entrepreneur/digital-detox-why-businesses-are-logging

 

 

Mostrar 10 comentários
  • Filipa Pereira
    Responder

    Querida Sofia, que bom ler-te!
    Não sou empreendedora mas há muito que penso fazer o mesmo e hoje ainda tenho mais certezas! Grata pela partilha. Sinto que vivemos todos num mundo em que todos queremos ser diferentes mas acabamos todos por fazer igual. E isso é cansativo, para além de ser o oposto da premissa inicial. Um grande beijinho Musa.

    • Sofia de Assunção
      Responder

      Querida Filipa, fico muito feliz por saber que esta minha partilha ressoou em ti, independentemente de seres ou não empreendedora! Criticámos o ensino e a sociedade que nos formatou para sermos todos iguais e cabermos todos em caixinhas. E continuamos a fazer o mesmo, simplesmente com uma cara diferente! É importante repensarmos o uso que estamos a fazer do digital e percebermos que, de facto, estamos a ser influenciados e por assim dizer, manipulados a querer, a fazer e a ser coisas que não vêm, na maior parte das vezes, da nossa essência. Agradeço a tua presença e apoio e seguimos juntas, sempre. Ah e lembra-te que somos todas Musas!<3

  • Elsa Sofia Capelo Chança
    Responder

    Obrigada por alertares o que passamos na nova era digital
    Desconectar e viver o presente com o nosso corpo, as nossas ferramentas pessoais ( intelectuais e físicas ) dá—nos um equilíbrio mais natural.
    É importante estarmos informados, mas em excesso também não!
    Que tudo nos corra bem! 🙏💗🌟

    • Sofia de Assunção
      Responder

      Querida Elsa, muito grata por me leres e por chegares até mim! Fico feliz que a minha partilha tenha feito sentido para ti também. O excesso de consumo, seja ele do que for, nunca é benéfico. Que saibamos consumir com mais consciência e voltarmos mais à vida real! Um beijinho no coração <3

  • Krystel
    Responder

    Como pessoa do digital, aqui me apresento como CANSADA do digital da forma como o VIVEMOS hoje. Nos últimos tempos também tem pensado muito nisso, e a minha conclusão é que não devemos viver para o digital, nem exclusivamente do digital.

    E sim, mesmo eu apologista do trabalho remoto, viver exclusivamente DO digital está completamente errado: o que vai dar sempre sustento financeiro e sustentabilidade a todos os níveis são as pessoas, e as pessoas devem ser cuidadas na sua real natureza e contexto… o offline.

    Cuidarmos de nós enquanto pessoas e humanos fora dos ecrãs e da plasticidade que daí advêm é essencial para olharmos para os outros também de uma perspectiva empresarial e financeira: se nós, enquanto empreendedores, não temos consciência do que é ser humano e pessoa REAL, como podemos esperar ter um negócio REAL sem esse entendimento?

    Bem, talvez seja uma reflexão confusa, mas depois de ter lido o teu post foi o que me veio. Obrigada por toda esta partilha REAL e valiosa, como sempre!

    You rock ❤️

    • Sofia de Assunção
      Responder

      Querida amiga, muito obrigada pela tua partilha. Deixaste-me a refletir ainda mais sobre a importância do trabalho offline e presencial e sobre como me sinto chamada a co-criar momentos desses, momentos reais onde nos conectamos graças à nossa humanidade, uma humanidade que é atualmente escondida por detrás dos tais avatares plásticos. Obrigada também por seguirmos juntas nesta caminhada!

  • Andreia Coelho
    Responder

    Querida Sofia,
    Também sinto que há um excesso de informação e que isso gera muita pressão a quem está a consumir, seja de uma perspectiva mais superficial, seja mais específica numa determinada área. Muitas vezes, sinto a necessidade de desligar o wi-fi e de me afastar um pouco das redes sociais. E quando me conecto, tento ser mais selectiva no que estou a consumir.
    Gostava de te dizer, também, que tens tocado num ponto que já tenho conversado com uma amiga empreendedora, que é o facto de as redes sociais trazerem personagens criadas com um determinado fim, de serem autênticas máquinas de produção, de ser tudo cor-de-rosa… e a vida real não é nada assim… Bem sei que ninguém tem interesse em partilhar um mau mood, mas chega a ser um exagero, pelo menos para mim. Já senti o que sentiste, o síndrome da inferioridade, e sei de mais pessoas que já o sentiram também, por isso concordo tanto com tudo o que tens dito e partilhado recentemente acerca do tema.
    Queria aproveitar para te mandar um beijinho e dizer -te que senti “falta” dos teus conteúdos durante este teu detox digital. E o resto tu já sabes, admiro muito o teu trabalho e todo o teu crescimento enquanto pessoa e profissional.
    Beijinhos e um abraço 😘😘

    • Sofia de Assunção
      Responder

      Querida Andreia, grata por estares sempre aí e por expressares sempre o teu apoio e presença. Agradeço-te mesmo por isso! Fico também feliz por saber que o que escrevi neste post ressoou em ti. É tão bom sentir que não estamos sós 🙂

      Eu sinto que tenho uma enorme responsabilidade a cada vez que faço um post nas redes sociais. Porque eu sei que isso vai ter um impacto no outro, no mundo. Quando oferecemos uma imagem de perfeição, que mensagem estamos a passar para o outro? Quando nos tornarmos robôs e expressamos apenas uma emoção (felicidade), perdemos a nossa humanidade com todo o seu espectro de emoções. E o que estamos a ensinar aos outros? Que mensagem é que estamos a passar aos outros com isso?

      Enfim, este assunto dava pano para mangas e eu poderia ficar horas a dissertar sobre a coisa 🙂

      Deixo-te um grande beijinho de gratidão por seguirmos juntas há tantos anos. <3

  • Marta
    Responder

    Sublime Sofia 🙌🏻

    Grata pela partilha e por dares voz a tanta verdade ✨

    • Sofia de Assunção
      Responder

      Marta querida, obrigada pelo teu apoio constante neste caminho de encontro com a minha Verdade! Não imaginas o quão as tuas palavras são importantes para mim. Grata irmã por teres entrado no meu caminho, mesmo que apenas por breves e interessantes passagens <3

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