Busca por Propósito: uma expressão do hedonismo moderno.

Trabalho com propósito é aquele em que eu faço apenas o que amo.”. Esta busca é uma expressão do hedonismo moderno e reflete a nossa imaturidade enquanto adultos infantilizados.

É apenas uma das muitas histórias sobre trabalho com propósito. Como escreveu Yuval Noah Harari no seu livro “21 Lições para o Século XXI”, as histórias mais bem-sucedidas são aquelas que são tão boas a cativar a nossa atenção que nos cegam para o questionamento da sua veracidade.1

São histórias como essas, nas quais acreditamos quais crianças ingénuas, que levaram e levam nações inteiras a cometerem os crimes mais horrendos da história da humanidade.

Maturidade implica sair da dualidade.

Mulher num campo de milho com dois caminhos possíveis para caminhar. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - propósito.
Uma das maiores aprendizagens que o Pathwork® me trouxe prende-se com a dualidade como percepção distorcida e infantil da realidade.

“(…) uma pessoa pode ser boa por um lado e má por outro (…) pode ser digna de confiança por um lado e indigna por outro, egoísta por um lado e altruísta por outro.”2. Mas a criança dentro de nós não vê isso. Para a criança é isto ou aquilo, é preto ou é branco. Para ela não existem meios-termos, não existem cinzentos.

Para crescermos em maturidade, precisamos portanto de perceber em nós que trabalho com propósito contém em si fazer o que amamos e contém também em si fazer coisas de que não gostamos assim tanto

Verdade sobre propósito: nada nos satisfaz totalmente!

Mulher a olhar a vista de cima de uma pedra com nevoeiro. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - propósito.

Buda ensinou-nos que as três realidades básicas do universo são:1 

  • tudo está em constante mudança;
  • nada tem uma essência duradoura;
  • nada satisfaz totalmente!

Quanto mais nos apegarmos a essa história de que “Trabalho com Propósito é aquele em que eu faço apenas o que amo”, mais desiludidas e frustradas serão as nossas expectativas porque não é isso que iremos encontrar! É uma busca que nunca terá fim e que leva tantos jovens adultos a viverem numa permanente insatisfação.1 

Essa insatisfação pode ser um motor que nos empurra para uma vida cada vez mais próxima de quem de facto somos. Mas ela pode ser também um motor que nos empurra apenas para uma outra coisa, para algo novo, não necessariamente mais feliz… apenas diferente! Como diz Mario Sergio Cortella “(…) uma insatisfação negativa que leva ao sofrimento, que faz que não haja descanso ou serenidade.” 3

No passado, existiam os rites de passage, rituais e cerimónias que acompanhavam a passagem de uma pessoa para uma nova forma de vida ou um novo estatuto social  (I. Gaya, Gaya Circle, Práticas Ritualísticas & Ritos de Passagem, 2019). 

Parece-me que o culto da gratidão e a celebração das mais pequenas conquistas são práticas que precisamos de resgatar com urgência nas nossas vidas. Ou corremos o risco de nos assemelharmos a hamsters nas suas rodas, correndo sem parar em busca sabe-se lá do quê!

Propósito: a busca da perfeição como caminho para a auto-alienação.

Caminho no meio de uma floresta de folhas secas. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - propósito.

Segundo o Pathwork®, o conceito que o ser humano tem de uma vida alegre e feliz está sempre associado a uma vida perfeita.4 Eu serei feliz quando viver um relacionamento perfeito, eu serei feliz quando tiver o trabalho perfeito, eu serei feliz quando viver na casa perfeita… 

Vivemos empenhados em tornarmo-nos perfeitos e em vivermos uma vida perfeita de acordo com os padrões da sociedade em que vivemos. Como esses padrões vêm de fora, estamos no fundo empenhados em afastarmo-nos de quem de facto somos e é portanto o caminho para nos perdermos de nós mesmos ou seja, para a auto-alienação.4

Se nos perdemos de nós mesmos, como podemos encontrar o nosso IKIGAI, que em japonês significa “propósito de vida”? Como podemos reconhecer o que amamos fazer, no que somos bons ou o que nos pagariam para fazermos?

Chegar ao destino sem percorrer o caminho!

Estrada no meio do campo por entre as montanhas ao pôr do sol. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - propósito.

Em 2014, numa viagem ao interior de Angola, fui conhecer uma antiga fazenda de colonos portugueses. Na fazenda haviam montado, há mais de 80 anos atrás, uma central para gerar eletricidade a partir da água que corria forte num ribeiro ali ao lado. No mecanismo montado, todo ele em ferro e pesando toneladas, jazia uma placa dizendo “Made in England”.

É das memórias mais marcantes que trago de Angola porque fiquei perplexa face à dimensão daquele feito. Como é que, há 80 anos atrás, alguém concebeu aquela ideia, fê-la materializar-se em Inglaterra e encontrou forma de a transportar até ali, a mais de 700km de distância de uma povoação vizinha?

Hoje, eu não teria a paciência para esperar o tempo percorrido entre o momento da concepção da ideia e a sua materialização no lugar (que hoje seria certamente menor do que naquela altura). Eu teria desistido, teria achado que haviam demasiados desafios pelo caminho, demasiados obstáculos a vencer (e seriam certamente bem menos do que há 80 anos atrás).

Reconheço em mim e nos demais jovens adultos que apoio, esta impaciência para aguardar o tempo entre o plantio e a colheita. Queremos semear de manhã e colher à tarde! Estamos pouco familiarizados com conceitos como “compromisso”, “devoção”, “dedicação”. Se o resultado não vem logo, sentimo-nos frustrados e mudamos de rumo considerando que o caminho de propósito não será por ali.

Isso reflete-se tanto nas nossas vidas profissionais quanto pessoais, onde a falta de compromisso e devoção têm aniquilado relacionamentos familiares e afetivos.

Como diz Mario Sergio Cortella, “(…) grande parte da geração atual foi criada sem a ideia de transição entre desejo e o facto, entre a vontade e o êxito, o anseio e a satisfação. Há jovens de 20 anos que nunca se deram ao trabalho de fazer a cama ou lavar a louça.” 3

Queremos o destino, sem percorrer o caminho porque se o destino nos parece prazeroso, o caminho sabemos que nem sempre o é. Este é apenas e somente mais um sinal da nossa imaturidade emocional.

Concluindo…

Livro sobre ikigai em cima de uma mesa com cristais e incensos. Post em Sofia de Assunção Coach PNL Facilitadora de Processos de Des-Coberta Profissional - propósito.

De acordo com o conceito japonês “IKIGAI”, para encontrarmos o nosso propósito, devemos reunir aquilo que amamos fazer, aquilo em que somos bons, aquilo que nos pagariam para fazermos e aquilo de que o mundo precisa. Já no Curso de Futurismo e Novas Economias (Fluxonomia 4D), trabalho com propósito é aquele que abraça as nossas paixões, o nosso diferencial e uma causa colectiva.

Onde quer que se aborde esta questão de trabalho com propósito, a noção de paixão por aquilo que se faz está, de facto, presente. Porém, que sejamos adultos maduros capazes de reconhecer que nunca o estará de forma totalitária!

Para nos sentirmos realizados profissionalmente, a parte mais substancial do nosso trabalho deve ser algo que nos apaixona, algo que faríamos mesmo que ninguém nos pagasse para isso, algo ao qual devotamos o nosso tempo com entusiasmo e alegria. 

Haverá uma outra parte, é certo, da qual gostaremos menos. Citando, mais uma vez, Mario Sergio Cortella “(…) é preciso ter consciência de que, no desenrolar da vida profissional, para se fazer o que se gosta, é necessário passar por etapas não necessariamente agradáveis no dia-a-dia.” 3 

Se procuras viver um trabalho com propósito e te sentes preparado para investigares esta questão com maturidade, o Workshop Online “Trabalho com Propósito” vai fazer sentido para ti.  Ao longo de 9 módulos, vamos passar por uma fase de auto-conhecimento seguida de uma fase de exploração de possibilidades profissionais. Conhecer quem somos é a única forma de podermos fazer escolhas alinhadas e coerentes. Sabe todas as informações aqui.

Referências:

1 HARARI, Yuval Noah – 21 Lições para o Século XXI. 1ª edição. Amadora: 20|20 Editora, 2018. ISBN 978-989-8864-38-3, p. 319, 347.

2 PIERRAKOS, Eva Broch – Impressões falsas dos pais – sua causa e cura. Palestra do Guia Pathwork® nº 099. Palestra não editada de 2 de março de 1962. The Pathwork® Foundation. 1999.  

3 CORTELLA, Mario Sergio – Porque fazemos o que fazemos: aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização. 1ª edição. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2018. ISBN 979-989-777-121–7, p. 103, 91, 90.

4 PIERRAKOS, Eva Broch – O perfeccionismo impede a felicidade; manipulação de emoções. Palestra do Guia Pathwork® nº 097. Palestra não editada de 2 de fevereiro de 1962. The Pathwork® Foundation. 1999.  

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